O Blogue da Chris

Diário Alimentar

Diário Alimentar

Sabem aquelas dicas que a gente pensa: “ah se tivessem me contado isso antes?”, pois é, essa do diário alimentar é uma delas.

Quando recebi o diagnóstico da APLV (alergia ao leite de vaca) de Samuel não foi nada fácil. O médico foi certeiro e deu o tratamento: excluir o alimento da dieta. Parece bem simples, não? Mas não é nada simples.

O dia-a-dia da alergia não se aprende no consultório, por mais que o médico tenha muito conhecimento e boa vontade. Decidimos juntos, o médico e eu, a acompanhar quinzenalmente nessa primeira fase de diagnóstico e tratamento.

Algumas consultas eram muito animadoras, outras nem tanto. Eu ficava completamente perdida. Parecia estar fazendo tudo certo, mas os sintomas iam e voltavam. Depois de dias investigando o que estava furado na minha alimentação, decidi tomar nota de várias coisas diariamente, fazendo assim um diário alimentar.

O diagnóstico do Samuel veio quando ele ainda estava em AME – Aleitamento Materno Exclusivo – logo, quem fazia a dieta era eu. Então, neste Diário eu anotava diariamente:

  • todas as refeições feitas, incluindo as marcas e os temperos;
  • medicamentos, vacinas e complementos vitamínicos utilizados por ambos, registrando o laboratório, inclusive;
  • produtos de higiene pessoal de ambos, meus e dele;
  • cosméticos;
  • reações do bebê:

5.1- Comportamento:

–Sono

–Irritabilidade

5.2- Respiratório:

–Tosse

–Catarro

–Chiado no peito

5.3- Gastrointestinais:

–Fezes (muco, sangue, diarreia, cor e consistência)

–Gazes

–Cólicas

— Vômito ou refluxo

5.4-Pele:

–Coceira

–Edemas

–Urticárias

–Assaduras

  • Mudanças importantes de rotina, como passeios, consultas e visitas.

 

Muita coisa para escrever, não é? Para ficar mais fácil, Elias, o pai, fez uma tabela onde só preenchíamos os espaços.

O diário entrou na nossa rotina sem muita dificuldade, IMPORTANTE, sem ser um peso. O caderno ficava lá: ao lado da minha cama, e eu o preenchia. Algumas vezes inseria desabafos, outras piadas, outras escrevia: “o mesmo de ontem”, “nada de novo”, “vou enjoar de cuscus”, “esse bolo tava bem ruim”… ele, o diário, não foi uma grande obrigação, foi uma ajuda e que me limitei a manter atualizado.

Partindo dessas anotações, foi possível diagnosticar a alergia a ovo e também descobrir onde havia erros na minha dieta, possibilitando acertar o tratamento do meu filho. Acontece que nos casos de alergia alimentar, exames são complementares, para o diagnóstico a observação clínica adequada é fundamental e o diário foi um mecanismo maravilhoso para se chegar à cada conclusão.

O trabalho valeu a pena! Que bom que posso dar essa dica a está começando!

 

Sobre Pai e Alergia Alimentar

Por Elias Lucena

 

 

De tamanho, quase nada ‘inda não tem

E tão frágil é a sua condição

Sem querer, sem ter feito petição

De um alimento carrega uma alergia

Não podendo estar em harmonia

Com aquilo que gosta de comer

Deixa a mãe e o pai sem proceder

E aumentar ainda mais o seu cuidado

Sem saber se o rebento está fadado

A uma incurável forma de viver

Uma mãe, de forma incondicional

Larga tudo e protege o seu filho

Mas tem pai, achando perder o brilho

E sua parte se omite em fazer

Outros lutam buscando perecer

A moléstia que o seu filho persegue

O amor não é coisa que se negue

Muito menos responsabilidade

E a derrota da adversidade

Dá trabalho, é ruim, mas se consegue

Alergia alimentar não é frescura

Se engana por demais quem assim acha

Se existisse uma espécie de borracha

Todo pai apagaria esse suplício

Não deixando nem mesmo um resquício

Do tal mal que atinge o seu pequeno

Desse modo, querendo vê-lo pleno

Lhe oferece o ambiente mais propício

Com leveza ou até com sacrifício

E afasta o seu filho do veneno

Se de alérgico você é um papai

Tome posse de sua obrigação

Importante é a participação

Não se veja “prestando um ajuda”

Atitude é coisa que se muda

Parabéns a você que já entende

Se interessa, acredita, estuda, aprende

Os caminhos e atalhos a seguir

Sem temor, sem medo de sucumbir

Alcançando a tolerância que defende.

Sobre aparência, beleza e Carmen Miranda

Nunca fui muito habilidosa com trabalhos manuais. As roupas das minhas bonecas eram amarradas, coladas, nada combinava. Uma tragédia! Admirava quem conseguia costurar as roupas. Até hoje nem botão sei pregar! E a estética? Uau! A combinação perfeita de cores, a ousadia nos adereços, um estilo próprio, sempre babei em mulheres e meninas com essa capacidade de nunca estar na moda e sempre terem sua identidade fazendo seu próprio estilo, rompendo com o óbvio do senso comum e dando asas à criatividade sem se preocupar com os olhares e opiniões nada proveitosas.

 

Já na idade adulta, eu consegui realizar um pouco dessa liberdade. Em 2011 deixei de pintar os cabelos e, por volta de 2013, de escová-los. Não me lembro muito bem quando passei a ignorar as regras de vestuário da advocacia, imagino que tenha sido tão logo me formei, exceto, claro, nos casos que para entrar no Tribunal tenha que estar assim ou assada. Sim, ainda tem disso por aí e acabo encarando para evitar a fadiga.

 

Tudo tem um custo. Minha decisão quanto à minha aparência já me fez ouvir vários comentários ruins e outros tantos machistas:

 

– Nossa! Pinta o cabelo. Vai ser mais respeitada! (ignorei)

– Ué? Você é advogada? Achei que era estagiária. (fiquei feliz, sinal que me achou nova)

– Toma aqui 15,00 para você comprar uma tinta! (recebi e comprei picolé)

– Seu marido deixou? (também mereceu silêncio como resposta)

 

Nenhum desses comentários ou de outros não listados, me fez demover da ideia de ser eu mesma, de me olhar no espelho e me reconhecer, de ver a Christiane lá exatamente como ela é: com acne adulta, com cabelos brancos e seus cachos com vontade própria, qual sua dona, com sua história indelével em seu corpo em forma de rugas, peitos flácidos, estrias e cabelos brancos. Alguns dias me acho linda, outros tenho certeza, outros me acho feia. O fato é que em nenhum deles minha aparência é decisiva para o que sinto, mas sim todo o contexto do meu dia. Quem nunca se achou linda de chinelo e caneta prendendo o cabelo? E feia pronta para um baile de gala?

 

Não sou a primeira mulher a agir assim, tentando ser ela mesma e buscando sua identidade no visual. Várias outras abriram caminho para que eu hoje pudesse tão tranquilamente nunca pintar as unhas ou escovar os cabelos e em elas fizeram em épocas muito mais difíceis. Uma delas foi Carmen Miranda, sim, aquela das frutas no chapéu.

 

Nunca havia lido nada sobre Carmen Miranda até me deparar com o “Carmen, a pequena grande notável” de Heloísa Seixas, Júlia Romeu e Graça Lima – Edições de Janeiro. Engraçado que o comprei naquelas megas promoções de novembro e sequer o tirei do plástico por meses. Parece que tudo tem sua hora e deste livro foi sábado passado.

 

Desde menina, Carmen Miranda costurava as suas roupas. Já adulta, pensou seus sapatos (ela inventou os sapatos de plataforma) e seus chapéus. Criou um estilo próprio e único de cantar que se eternizou. Virou lenda, virou mito. Carmen Miranda hoje, muitos anos após sua morte, faz parte do imaginário popular brasileiro como símbolo de alegria e autenticidade. Isso em um tempo que mulher sequer era autorizada a ter um bem, quanto mais a ser ela mesma.

 

A leitura desse livro foi uma verdadeira delícia, com direito a cantar os sambas eternizados na voz da Grande Pequena Notável, dançar a imitando e assistir a seus vídeos na internet. A história de Carmen por si só já é incrível, como se fosse possível, fica ainda melhor na narrativa desse livro imperdível! Uma leveza, uma poesia…recomendo muito!

 

Obrigada, Carmen Miranda! As frutas dos seus chapéus abriram alas pros brancos, crespos, verdes, azuis que hoje vemos por aí!

(originalmente postado no Geração Mãe)

Bananas Amassadas

Um conto colombiano, colhido por Nyedja Gennary e adaptado por Christiane Nóbrega

Juquinha nasceu ótimo. Vivia mamando no peito de sua mãe e dormindo no aconchego de seu pai. Tudo ia mais ou menos bem. No começo é tudo meio confuso mesmo. Juquinha tinha cólicas horríveis, sua barriga ficava estufada e algumas vezes seu cocô saia com sangue.

O médico disse que a mãe tinha de comer coisas saudáveis, mas Juquinha não melhorava, só piorava. Quanto mais seus pais tentavam, mais ele piorava.

Quando ele começou a se alimentar de outras coisas além do peito, ele já não conseguia dormir nem no colo do papai e nem no da mamãe. Chorava muito. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

A mãe pediu ajuda nas redes sociais, colocou um SOS bem grande. Foi orientada que podia ser alergia alimentar e teria que fazer vários testes com os alimentos. Percebeu que sempre que ela tomava leite de vaca tudo piorava.

Confundiu as bolas e pensou que o problema era lactose. Ele piorou de novo, afinal de contas, é muito raro bebês com intolerância à lactose. É muito mais comum a alergia à proteína do leite. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

Acham que ele melhorou? Que nada! Pararam de comer glúten, acharam que ele era celíaco, outro problema de saúde. Mas nada de melhorar.

-O que seria que estava fazendo tão mal a ele? – falou a mãe.

-Certeza que é a carne vermelha! – disse o pai – Nada de carne vermelha à partir de hoje. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

“Será que os alimentos podem mesmo ser um grande vilão?” – pensou o papai do Juquinha. Sem leite de vaca, sem carne vermelha, sem glúten e nada de melhorar! Já não sabiam o que fazer. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

Finalmente o papai e a mamãe conseguiram uma vaga com uma grande médica, muito estudiosa, muito carinhosa e atenciosa:

– Nada de pânico! Senta aqui e vamos conversar! – disse a médica. E, então, ele começou a explicar tudo, tudinho mesmo. Os pais nem piscavam, queriam entender tudo, tudinho mesmo.

É, devia mesmo ser a tal alergia alimentar.

– Nosso corpo – explicou a médica – tem uns soldados que nos defendem dos germes, aqueles bichinhos bem pequenininhos que nos deixam doentes, sabem? Algumas vezes eles ficam meio confusos e acham que alguns alimentos são germes e reagem contra eles causando as tais reações alérgicas. Tem gente que se empola, tem gente que se coça, tem quem fique inchado e quem tenha problemas na barriga, feito Juquinha. Agora, é descobrir qual é o alimento vilão dessa história. Quem? Quem? Quem?

– Que exame faz, doutora? – já foi perguntando o apressadinho do papai do Juquinha.
– São poucos exames. É que na alergia eles ajudam só um pouco. A observação é bem importante – disse a médica – vocês precisam ter cuidado com contaminação cruzada e com os traços.

-Hein? – falaram juntos o pai e a mãe e pensaram que ainda bem que ele come bananas amassadas.

-Calma! Contaminação cruzada é quando um alimento se mistura com o outro. Tipo quando a gente põe a colher do feijão no arroz e fica tudo marronzinho de feijão, ou quando um grão de arroz vai nadar no caldinho de feijão, sabe? Ou quando pegamos a farofa com a colher suja de molho? – Respirou fundo e continuou – já os traços são mais escondidinhos, os danadinhos, podem vir na bucha, na vasilha plástica que não limpa direito nunca, na tábua ou colher de madeira… Ah! Os traços podem vir também no biscoito, na farinha, no suco, sabem por que? Em alguns casos, fábricas usam a mesma máquina para fazer produtos diferentes que acabam deixando os tais traços.

A essa altura o papai e a mamãe do Juquinha já estavam meio tontos com tanta novidade. Alergia, traço, contaminação, anotar, exame…e lá no fundo pensavam que ainda bem que o Juquinha comia bananas amassadas.

Pronto. Seguiram as orientações médicas. Agora buscaram ajuda nas redes sociais só para saber receitas, alimentos seguros, estratégias de como lidar com amigos, família… nada de diagnóstico. Esse é só para a médica.

Passaram dias e dias. A mãe anotava almoço e janta, o pai o café e o lanche. Trocavam. O pai anotava janta e almoço. A mãe anotava lanche e café. Foram tirando um alimento e pondo outro, tudo como o médico explicou. Ia e vinha. Se tornaram verdadeiros detetives. Ainda bem que Juquinha comia bananas amassadas.

Ele melhorou, mas só um pouco. Voltaram à médica. Dessa vez com o caderno onde anotavam tudo. Logo a médica viu quem nunca saiu dali. Elementar, meus caros! As tais bananas amassadas! Como pode a banana uma fruta tão bonitinha e saudável fazer mal a alguém? Sim, ela fazia. Mistério esclarecido. Saíram aliviados, tinham finalmente uma resposta. Sim, Juquinha tinha alergia a leite, mas também a banana.
Agora Juquinha dormia, sorria, engordava e até tinha aquelas viroses e febres que toda criança tem e os pais conseguiam perceber a diferença da reação e dos outros problemas.

No aniversário de um ano de Juquinha, sua mãe e seu pai fizeram uma festa muito legal para comemorar. Convidaram todo mundo, quer dizer, menos o leite e a banana, claro.

A festa foi linda e cheia de coisas gostosas. Só o que Juquinha podia comer. Tinha brigadeiro, bolo, salada de fruta, sanduíches, água e suco. Tinha também quibe, empadinha e coxinha. Tinha muito amor e carinho. Tinha também muita amizade e respeito. Foi nesse dia que o R da palavra alergia decidiu se mudar, quis ficar entre o G e o I. Daquele dia em diante, a palavra seria ALEGRIA!