O Blogue da Chris

Nordeste não é um estado

Ganhei de um amigo querido uma caixa de livros com biografias escritas em quadrinhos (Patmo Editora). Comecei a leitura por Jackson do Pandeiro. O fato é que ao me deliciar com a leitura me perguntei quantas crianças paraibanas conhecem a história desse fenômeno da música brasileira? Quantas outras foram apresentadas à poesia cantada por Luiz Gonzaga além das festas juninas? Quantos no Brasil sabem que Ariano Suassuna não é um comediante cuja obra se limitaria ao “Auto da Compadecida”? Quantos se referem ao nordeste como se ele fosse um único estado e sem respeitar a sua individualidade? Dava para escrever um tratado sobre isso… não se preocupem, vai ser só um textão mesmo.

 

Em tempos onde tudo é resumido à mimimi, fico pensando na reação das pessoas ao lerem esse texto. Vamos lá, pessoal! O mundo tá bem chato mesmo e, spoiler, vai piorar, graças a Deus. Criança é gente. Mulher tem os mesmos direitos que homem. Preto é igual branco. Sotaque não é motivo de piada. Nordeste não é um estado.

 

Eu tinha uns 14 para 15 anos, início do Ensino Médio, então segundo grau. Primeiro dia de aula em escola nova (nunca havia trocado de escola) e aquela chatice de todos se apresentarem. Aqui em Brasília, temos um agravante: o tal do “de onde você vem?”. Chegou minha vez. “Nasci em Brasília.” “E seus pais?” “Minha mãe do norte do Goiás, hoje Tocantins e meu pai do Ceará.” Risadas contidas. Emendei. “Mas foi criado no Piauí.” Gargalhadas seguidos de um “Pió-cerá” dito por algum colega. Naquele dia, meu constrangimento se disfarçou de graça. Ri junto, mesmo tendo aprendido a amar e respeitar as minhas origens.

 

Depois desse dia, não lembro de posteriores preconceitos diretamente a mim, mas o preconceito estrutural sempre esteve aqui e aí todos os dias. Quantas vezes se ouve dizer que o “sotaque do nordeste é engraçado”, que pra um “nordestino até que ele é bonito”, esse “povo lento, hein?”, “comida esquisita”. Engraçado ver “sudestino” encher a pança de feijoada e torcer o nariz para buchada, sarapatel e mugunzá.

 

Duro, ainda, é quando paraíba é sinônimo de porteiro ou simplesmente “zé ninguém” ou quando baiano é

sinônimo de burro ou preguiçoso ou cearense de cabeçudo… e, não raro, o preconceito de origem se mistura ao de cor.

 

Não fiz um estudo técnico científico sobre isso. Mas nem precisaria.  A mídia é a grande, senão a maior, culpada da perpetuação dessa secção do país. A representatividade dos nordestinos nesses canais é ínfima. Jornalistas? Só os com sotaque carioca ou no mínimo, aqueles que se esforçam para mascarar sua identidade. Sequer quando há uma novela ou filme que se passe por lá, o elenco é genuinamente nordestino. Preferem atores e atrizes do Sudeste com um sotaque forçado e muitas vezes ridículo. O que era o sotaque da Beth Faria na novela “Tieta”? E da Juliana Paes em “Gabriela”? Enquanto isso, aos autênticos são dados os papéis de porteiros, empregadas que, pela estrutura da trama, são secundários, ridicularizados ou até mesmo invisíveis.

 

Os estados que compõe o Nordeste, são muito mais que sertão e mar. Não. Não são fornecedores de porteiros e empregadas dos bairros bacanas do Rio e São Paulo. Não. Não são um lugar de sotaque engraçado. Não. Não são só água de coco e mar. O fato é que as pessoas são ignorantes não só no preconceito, mas no conhecimento de Geografia mesmo.

 

Queria mesmo é que a reação dos não-nordestinos que chegaram até aqui, fosse repensar seu preconceito. Aventurem-se sobre Espedito Seleiro, Mestre Vitalino, Jessiê Quirino, Carol Levy, Santanna, João Cláudio Moreno, Maria Valéria Rezende, Noilton Pereira e tantos e tantas outras. Provem um cuscuz, comam uma tapioca, dancem um xaxado. Busquem conhecer a região, ainda que através do Google. Ensinem seus filhos a valorizar o que é nosso.

Coragem! Vai ser maravilhoso!

 

Pedrada

Era sábado à tardinha. Sentado, do batente da sua casa, viu tudo. O pai cansado subia a ladeira. Trocava os passos, cambaleava. A vida era dura demais e a cachaça barata aliviava. O outro que bebia junto vinha logo atrás. Falava alto. Gesticulava. Algumas vezes o pai virava para trás e olhava o amigo, vizinho e compadre. Respirava fundo como um antídoto contra as palavras que ouvia e que lhe doíam. Como um herói, resistia em pé. Andando. Subindo. Ouvindo. A respiração funda não bastou. Uma das palavras não caiu bem. Indigesta. Virou-se. Reuniu em si o resto que lhe faltava de equilíbrio e o fim começou.

 

Um embolado de gente. Já não se sabia quem era o pai. Quem era o vizinho. Pés. Mãos. Gritos. Sangue. Silêncio. Sirene.

 

Amigos. Eles eram amigos. Decididamente.

 

Sentia-se cheiro de suor, de raiva e de sangue. Decididamente. Não havia raiva um do outro. Não. Havia muita dor. Dor da vida. Dor da fome. Dor do medo. Dor da solidão.

 

O menino tremia. Chorava. A mãe, incrédula, via a cena. O pai algemado, sem resistir. Não, a ele não cabiam resistências. O amigo, companheiro de vida, deitado no chão.

 

A mãe o colocou na cama. Rezou com ele. A noite foi longa na cama vazia. O espaço que sobrava não lhe trazia conforto. Medo, trazia medo. A mãe desistiu de lutar para dormir. Fez seu café ralo. Ia à delegacia.

 

O ônibus lotado. Passou por baixo da roleta. Pela janela olhava os prédios e via a briga. Criava teorias. Ficava bravo com o pai e mais ainda com a polícia. A mãe segurava firme a sua mão. Prendia o choro. Indignava-se. Lembrou das brincadeiras. Do futebol domingo à tarde. Riu. Chegou o ponto. Desceu, ajeitou a camiseta surrada por cima da sua bermuda. Foi. A cada passo uma dor. Um esforço. Um medo.

 

O lugar escuro fedia. As paredes eram cobertas de mofo. Cheirava mal e seu estômago embrulhava. Não pode vê-lo. Ali crianças não podiam entrar. Ficou sozinho enquanto a mãe ia.

 

O pai monossilábico, a mãe contou. Voz baixa. Quis saber notícia do amigo que já estava bem. Voltou até a trabalhar. Que alívio! Queria depor. Queria falar que não era culpa dele. Achava que podia “tirar queixa”. Não podia. Não era assim. Uma pedrada daquela na cabeça era para matar. Na cabeça. Na cabeça da justiça. Não dos amigos. Bêbados. Cansados de uma vida de dor. Sem propósito.

 

Nada resolveu. Defensoria. Ministério Público. Juiz. Apelação. As grades seriam o destino de seu pai e os companheiros a personificação de sua dor. Anos a fio. Visitas humilhantes. Preferia a solidão. Doía menos.

 

A vida seguiu lá fora. Não a mesma. Aquele beco. O amigo. A cicatriz. Muita saudade.

 

O menino já era um jovem quando o pai saiu. Saiu outro. O desconheceu. Extraíram-lhe a humanidade. Os olhos se tornaram frios. Dentro de si, revolta e fome. Fome de comida. Fome de justiça. Já não humano, sua vida se esvaia. A pedrada o matou.

Chapeuzinho Vermelho

Chapeuzinho Vermelho

 

Chapeuzinho Vermelho era uma menina esperta e inteligente. Ela vivia na floresta com sua mãe, que fazia quitutes maravilhosos! Tudo muito gostoso e caprichado. Chapeuzinho adorava ajudar a mãe na cozinha. Enrolava doces, provava pães e embalava os salgados. Já até fazia algumas receitas mais simples sozinha. Se divertiam juntas fazendo mágicas na cozinha.

 

Numa linda manhã de sábado, a vovó ligou contando que estava doente e precisava de ajuda. Pediu que a filha mandasse uns lanchinhos, quem sabe assim ela se sentiria melhor. A vovó tinha umas alergias alimentares e não podia comer todas as coisas. Mas a filha e a neta sabiam direitinho o que ela podia comer e correram para a cozinha.

 

Misturavam a farinha, com carinho. O açúcar, com muito afeto! Ovo? Não, não, ela não podia. Leite de coco? Esse sim ela podia. Leite de vaca? Nem pensar! Não podiam esquecer o fermento e de pré-aquecer o forno. Quando terminaram tudo, a casa estava repleta de um perfume fantástico e a mesa estava cheia de bolos, pães e doces incríveis! A mãe pegou uma linda e grande cesta de piquenique, forrou com seu pano mais bonito e organizou tudo.

 

 

– Filha, você quem vai levar a cesta para a vovó. Cuidado no caminho. Dizem por aí que há um lobo no parque e que ele anda rondando crianças.

 

– Não se preocupe, tô levando meu celular, vejo no waze os alertas de lobos. – depois que falou isso, vestiu sua capa de chuva vermelha e suas galochas e foi encontrar a vovó enquanto sua mãe terminava suas encomendas.

 

Ah! O parque que ficava entre a casa da avó e a de Chapeuzinho era lindo! Cheio de árvores, pássaros e outros animaizinhos. Ela ficou tão animada que até esqueceu do lobo. Ia fazendo do caminho um belo passeio quando teve seus pensamentos interrompidos por alguém:

 

– Ei! Ei menina!? Onde você está indo com essa cesta enorme? – ela esqueceu que a mamãe tinha avisado para não falar com estranhos e foi logo respondendo:

 

– Quem é você? Eu sou a Chapeuzinho Vermelho e vou visitar minha avó, que está doente. Nessa cesta estão os lanches que preparamos para ela. Mamãe também colocou algumas frutas.

 

– E onde sua avó mora?

 

– No final do parque.

 

Chapeuzinho estava tão animada com tudo que nem percebeu que ela falava com quem? Com quem? Com ele, ele mesmo, o Lobo!

 

O Lobo morto de fome, doido pela cesta e pela menina, decidiu pegar um atalho e chegar primeiro que Chapeuzinho. Chegou na casa da Vovó e a prendeu no guarda-roupa. Vestiu suas roupas, mas esqueceu de pegar o celular da vovó! Ela, muito esperta, mandou logo um whatsaap pra netinha:

– Minha neta, chame ajuda, o Lobo me prendeu no armário e está vestido com minhas roupas para enganar você e comer meus lanches. – Assim que leu, Chapeuzinho ligou para a polícia.

 

O Lobo ficou muito engraçado com a camisola florida, touca e pantufas da vovó. Sentou-se na cadeira de balanço meio desajeitado e esperou. Esperou e até cochilou. Chapeuzinho demorou por que estava esperando a polícia.

Toque-toque-toque:

– Quem bate? – perguntou tentando afinar a voz.

Fingindo não saber de nada e seguindo as orientações da policial que estava escondida ao lado da porta, falou:

– Sou eu, vovó! A senhora está rouca mesmo, hein?

– É a rinite, netinha. O que você trouxe pra mim aí nessa cesta?

– Ah! Vovó, trouxe muitas comidas gostosas. – disse a menina bem nervosa.

O Lobo pegou a cesta e já foi colocando o primeiro bolinho na boca quando Chapeuzinho perguntou:

– Você vai mesmo comer sem saber o que tem? E se você tiver alergia?

– HAHAHHHAHA – riu alto o Lobo – alergia é frescura! Um médico me falou que eu não podia amêndoa nem http://christianenobrega.com.br/bananas-amassadas/, mas é bobagem, coisa de gente besta, quero mais é encher minha pança!- tirou a touca e meteu vários pãezinhos de uma vez na sua bocona. Chapeuzinho ficou com medo do Lobo e também preocupada porque era exatamente um pão de amêndoa que ele pegou para comer.

O Lobo ainda devorando a cesta de comidas, começou a se coçar. Coça aqui. Coça ali:

– Devo estar com pulgas! – mas seu olho começou a inchar e o Lobo já estava mesmo era parecendo um balão e não um lobão. Sorte do Lobo que junto com os policiais que cercaram a casa, veio uma ambulância com médico para cuidar da Vovó.

Ufa! O Lobo foi socorrido a tempo e aprendeu a lição, alergia é realmente coisa séria. Depois que saiu do hospital, pediu desculpas à vovó, à Chapeuzinho e à mãe. Acreditam que a conversa foi tão boa que até ficaram amigos? Perdoar e aprender com os erros é muito importante. O Lobo que queria mudar de vida, pediu ajuda para a mãe da menina e passou a ser o entregador das encomendas e elas decidiram que não mais usariam mais amêndoas em suas receitas, assim a vovó e o Lobo poderiam comer tranquilos todas aquelas delícias!

Adolescente

Filhos crescem.

Incomoda-me profundamente comentários de pais, mães e pessoas como um todo, que mencionam o desejo de que os filhos não cresçam:

-Que pena que crescem!

-Quero ver na adolescência!

Daria para escrever um tratado sobre isso, mas vou me ater à questão: filho é filho, para sempre, com 1 dia e com 70 anos.

E, não, não dá para pular a adolescência.

E qual o problema com a tal adolescência?

A adolescência é uma fase de profundos questionamentos. É uma fase dura, difícil para quem vive. A pessoa não é mais um bebê fofinho, nem uma criança engraçadinha, mas também não é um adulto livre e independente. Aí já vem o rótulo “aborrecentes”.

Como se não bastasse a crise “não sou criança nem adulto”, os picos hormonais e a absurda pressão de escolher o que você vai ser para sempre, o primeiro beijo… é muita coisa para alguém ainda em formação!

O fato é que o adolescente precisa do apoio e acompanhamento dos pais tanto quanto uma criança, claro que em padrões diferenciados. Se em casa ele encontra uma zona de eterno conflito, ele vai preferir estar onde o entendem e acolhem, mesmo que de modo inadequado. É natural.

Mas, o que fazer? Acolher, amar e, sobretudo, mostrar que compreende seus conflitos e dores. Nunca banalizar. Isso não significa ser permissivo, mas sim deixar claro que ele é amado exatamente como é e que esses conflitos tão significativos na sua formação, vão passar e com você ao lado. Mostrar que as regras da família não devem ser respeitadas porque “ele come do seu feijão”, mas sim porque é o melhor para ele e para família inteira e, assim, criar um ambiente acolhedor para todos.

Não dá para vincular amor com o sustento e com a maioridade. Minha mãe manda em mim até hoje! Todas são assim! Sim, porque regra e apoio é puro amor.

Quem não se lembra dessa fase? Do quanto era difícil não ser observada pelo mais bonito da escola ou não saber o que iria cursar na faculdade? E achar que iria morrer porque o namoro acabou? Ou achar que a vida acabou porque não pode ir aquele show ou festa? Até escolher uma roupa era pavoroso! Eu me lembro! E me lembro também de incríveis histórias e das amizades para vida toda que construí nessa fase.

E, assim, tento fazer meu melhor, focando nas delícias dessa fase e revivendo-as com ele de alguma forma e do mesmo modo não esquecendo as dores e junto com ele, superá-las.

Aborrecente aqui não! Aqui é filho, sempre filho.