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Impressões sobre a Flip – 2019

Estive essa semana em mais uma edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Sem dúvida, o evento literário mais charmoso do país! Foi minha segunda vez por lá (sobre a primeira leia aqui)  e mais uma vez foi maravilhoso. Muita arte, muita cultura e muito discurso com pouca prática.

 

Os temas das mesas provocaram uma necessária reflexão sobre a atualidade no Brasil, sobretudo sobre os conflitos sociais, polarização política, ódio explícito (machismo, misoginia, racismo, homofobia, elitismo) e pela crise da democracia brasileira pós golpe de 2016, tudo sob protesto de uma meia dúzia de opositores barulhentos e raivosos.

 

Muitas escritoras pretas na programação oficial. Escritores angolanos, nigerianos. Na programação das casas associadas e paralelas, um monte de coletivos editoriais e muitos eventos gratuitos espalhados pela cidade.

 

Logo na abertura da Flip, na programação principal no espetáculo “Mutação de Apoteose”, foi exibido um vídeo fortíssimo com cenas da sangrenta história recente do Brasil. Assassinato de Mariele e Anderson, massacres de povos indígenas, a atuação violenta e truculenta das polícias, o genocídio diário, o encarceramento em massa de pobres e pretos. Em seguida, o espetáculo contou com uma tímida participação dos indígenas locais. Tudo muito bonito e emocionante. Mas a inclusão ficou só no vídeo mesmo.

 

A entrada da tenda principal era cara, disputada. Seu público? Obviamente o retrato da elite branca brasileira, nível carros blindados e seguranças. Bem verdade que havia um espaço montado para transmissão ao vivo das mesas principais, mas precisa mesmo dessa segregação? Por que não um espaço único?

 

Os indígenas participaram da abertura (todos dizem óh…), mas foram nas ruas mais afastadas que expuseram seu trabalho. Ali, no chão mesmo, ao relento, literalmente à margem da Flip oficial. Não teria sido melhor inclui-los na programação oficial como protagonistas e não como totens?

 

A Flipinha, espaço dedicado às crianças, merece um capítulo à parte. Nessa edição, foi reduzida a um arremedo de lona de circo no meio da praça. Terrivelmente quente e que, com certeza, se chovesse, ficaria inviabilizada. Ao seu redor, brita. Isso senhoras e senhores, brita. Um terror para bebês. O espaço, de tão mínimo, quando recebia escolas locais, com não mais que pequenos grupos, ocupavam todo o minúsculo  espaço. Tudo sem cadeiras, banheiro e nem uma mesinha que servisse de fraldário.

 

A programação da Flipinha não teve melhor sorte, repetitiva e enfadonha, com a exceção de um ou dois momentos que valeram ouro, como a participação do escritor Jonas Ribeiro. Nenhuma autora ou autor infantil na programação principal. Nenhum.

 

É incompreensível tanto desdém. Sobretudo, quando o debate da vez é a crise do mercado editorial. Não são as crianças seu presente e futuro? Nem o espaço dos infantis na Livraria da Travessa estava bacana. Poucos títulos, estantes altas e muitos títulos mais comerciais que literários.

 

Para além dessa questão, se dizer feminista e não incluir crianças é bem contraditório. Claro que se o local não é acolhedor pras crias, a mãe também deixa de ir. Companheiros que assumam seu papel ainda são exceção e rede de apoio é privilégio de poucos. Pode-se dizer que não havia banheiros públicos de tão poucos. Os dos restaurantes eram exclusivos para clientes. Fraldários? Não vi nenhum.

 

Justiça seja feita! O SESC e o Museu da Língua Portuguesa, além de programação específica para crianças, tinham distrações para os pequenos leitores tornando-os também acessíveis às mães.

 

A preocupação de como divulgar, como vender, como conquistar mercado, quais os novos caminhos… é unânime e foi abordada com variados enfoques. O fato é que o mercado editorial teve por anos o setor público como principal comprador e com os cortes dos programas, ficaram meio que à deriva. Mas em pouquíssimos desses debates se discutiu a formação de leitores (teve Calangos Leitores na Casa Philos) e em menos ainda a democratização do acesso à literatura, o que mais crer que ano que vem acontecerão exatamente os mesmos debates.

 

A Flip de fato é um sucesso. Voltaria mil vezes e recomendo mais ainda. Mas alguém aí precisa ajustar a sintonia entre o discurso e a prática. Os indígenas, os pretos, as crianças, os LGBTQ+, as mães precisam sair da margem da Flip, esse já é o lugar que a sociedade os relega. Queremos o protagonismo. Espero nas próximas edições ver todas essas contradições diminuídas com muita prática e novos discursos. Não basta se dizer inclusiva, tem que ser inclusiva.

Nordeste não é um estado

Ganhei de um amigo querido uma caixa de livros com biografias escritas em quadrinhos (Patmo Editora). Comecei a leitura por Jackson do Pandeiro. O fato é que ao me deliciar com a leitura me perguntei quantas crianças paraibanas conhecem a história desse fenômeno da música brasileira? Quantas outras foram apresentadas à poesia cantada por Luiz Gonzaga além das festas juninas? Quantos no Brasil sabem que Ariano Suassuna não é um comediante cuja obra se limitaria ao “Auto da Compadecida”? Quantos se referem ao nordeste como se ele fosse um único estado e sem respeitar a sua individualidade? Dava para escrever um tratado sobre isso… não se preocupem, vai ser só um textão mesmo.

 

Em tempos onde tudo é resumido à mimimi, fico pensando na reação das pessoas ao lerem esse texto. Vamos lá, pessoal! O mundo tá bem chato mesmo e, spoiler, vai piorar, graças a Deus. Criança é gente. Mulher tem os mesmos direitos que homem. Preto é igual branco. Sotaque não é motivo de piada. Nordeste não é um estado.

 

Eu tinha uns 14 para 15 anos, início do Ensino Médio, então segundo grau. Primeiro dia de aula em escola nova (nunca havia trocado de escola) e aquela chatice de todos se apresentarem. Aqui em Brasília, temos um agravante: o tal do “de onde você vem?”. Chegou minha vez. “Nasci em Brasília.” “E seus pais?” “Minha mãe do norte do Goiás, hoje Tocantins e meu pai do Ceará.” Risadas contidas. Emendei. “Mas foi criado no Piauí.” Gargalhadas seguidos de um “Pió-cerá” dito por algum colega. Naquele dia, meu constrangimento se disfarçou de graça. Ri junto, mesmo tendo aprendido a amar e respeitar as minhas origens.

 

Depois desse dia, não lembro de posteriores preconceitos diretamente a mim, mas o preconceito estrutural sempre esteve aqui e aí todos os dias. Quantas vezes se ouve dizer que o “sotaque do nordeste é engraçado”, que pra um “nordestino até que ele é bonito”, esse “povo lento, hein?”, “comida esquisita”. Engraçado ver “sudestino” encher a pança de feijoada e torcer o nariz para buchada, sarapatel e mugunzá.

 

Duro, ainda, é quando paraíba é sinônimo de porteiro ou simplesmente “zé ninguém” ou quando baiano é

sinônimo de burro ou preguiçoso ou cearense de cabeçudo… e, não raro, o preconceito de origem se mistura ao de cor.

 

Não fiz um estudo técnico científico sobre isso. Mas nem precisaria.  A mídia é a grande, senão a maior, culpada da perpetuação dessa secção do país. A representatividade dos nordestinos nesses canais é ínfima. Jornalistas? Só os com sotaque carioca ou no mínimo, aqueles que se esforçam para mascarar sua identidade. Sequer quando há uma novela ou filme que se passe por lá, o elenco é genuinamente nordestino. Preferem atores e atrizes do Sudeste com um sotaque forçado e muitas vezes ridículo. O que era o sotaque da Beth Faria na novela “Tieta”? E da Juliana Paes em “Gabriela”? Enquanto isso, aos autênticos são dados os papéis de porteiros, empregadas que, pela estrutura da trama, são secundários, ridicularizados ou até mesmo invisíveis.

 

Os estados que compõe o Nordeste, são muito mais que sertão e mar. Não. Não são fornecedores de porteiros e empregadas dos bairros bacanas do Rio e São Paulo. Não. Não são um lugar de sotaque engraçado. Não. Não são só água de coco e mar. O fato é que as pessoas são ignorantes não só no preconceito, mas no conhecimento de Geografia mesmo.

 

Queria mesmo é que a reação dos não-nordestinos que chegaram até aqui, fosse repensar seu preconceito. Aventurem-se sobre Espedito Seleiro, Mestre Vitalino, Jessiê Quirino, Carol Levy, Santanna, João Cláudio Moreno, Maria Valéria Rezende, Noilton Pereira e tantos e tantas outras. Provem um cuscuz, comam uma tapioca, dancem um xaxado. Busquem conhecer a região, ainda que através do Google. Ensinem seus filhos a valorizar o que é nosso.

Coragem! Vai ser maravilhoso!

 

Sobre aparência, beleza e Carmen Miranda

Nunca fui muito habilidosa com trabalhos manuais. As roupas das minhas bonecas eram amarradas, coladas, nada combinava. Uma tragédia! Admirava quem conseguia costurar as roupas. Até hoje nem botão sei pregar! E a estética? Uau! A combinação perfeita de cores, a ousadia nos adereços, um estilo próprio, sempre babei em mulheres e meninas com essa capacidade de nunca estar na moda e sempre terem sua identidade fazendo seu próprio estilo, rompendo com o óbvio do senso comum e dando asas à criatividade sem se preocupar com os olhares e opiniões nada proveitosas.

 

Já na idade adulta, eu consegui realizar um pouco dessa liberdade. Em 2011 deixei de pintar os cabelos e, por volta de 2013, de escová-los. Não me lembro muito bem quando passei a ignorar as regras de vestuário da advocacia, imagino que tenha sido tão logo me formei, exceto, claro, nos casos que para entrar no Tribunal tenha que estar assim ou assada. Sim, ainda tem disso por aí e acabo encarando para evitar a fadiga.

 

Tudo tem um custo. Minha decisão quanto à minha aparência já me fez ouvir vários comentários ruins e outros tantos machistas:

 

– Nossa! Pinta o cabelo. Vai ser mais respeitada! (ignorei)

– Ué? Você é advogada? Achei que era estagiária. (fiquei feliz, sinal que me achou nova)

– Toma aqui 15,00 para você comprar uma tinta! (recebi e comprei picolé)

– Seu marido deixou? (também mereceu silêncio como resposta)

 

Nenhum desses comentários ou de outros não listados, me fez demover da ideia de ser eu mesma, de me olhar no espelho e me reconhecer, de ver a Christiane lá exatamente como ela é: com acne adulta, com cabelos brancos e seus cachos com vontade própria, qual sua dona, com sua história indelével em seu corpo em forma de rugas, peitos flácidos, estrias e cabelos brancos. Alguns dias me acho linda, outros tenho certeza, outros me acho feia. O fato é que em nenhum deles minha aparência é decisiva para o que sinto, mas sim todo o contexto do meu dia. Quem nunca se achou linda de chinelo e caneta prendendo o cabelo? E feia pronta para um baile de gala?

 

Não sou a primeira mulher a agir assim, tentando ser ela mesma e buscando sua identidade no visual. Várias outras abriram caminho para que eu hoje pudesse tão tranquilamente nunca pintar as unhas ou escovar os cabelos e em elas fizeram em épocas muito mais difíceis. Uma delas foi Carmen Miranda, sim, aquela das frutas no chapéu.

 

Nunca havia lido nada sobre Carmen Miranda até me deparar com o “Carmen, a pequena grande notável” de Heloísa Seixas, Júlia Romeu e Graça Lima – Edições de Janeiro. Engraçado que o comprei naquelas megas promoções de novembro e sequer o tirei do plástico por meses. Parece que tudo tem sua hora e deste livro foi sábado passado.

 

Desde menina, Carmen Miranda costurava as suas roupas. Já adulta, pensou seus sapatos (ela inventou os sapatos de plataforma) e seus chapéus. Criou um estilo próprio e único de cantar que se eternizou. Virou lenda, virou mito. Carmen Miranda hoje, muitos anos após sua morte, faz parte do imaginário popular brasileiro como símbolo de alegria e autenticidade. Isso em um tempo que mulher sequer era autorizada a ter um bem, quanto mais a ser ela mesma.

 

A leitura desse livro foi uma verdadeira delícia, com direito a cantar os sambas eternizados na voz da Grande Pequena Notável, dançar a imitando e assistir a seus vídeos na internet. A história de Carmen por si só já é incrível, como se fosse possível, fica ainda melhor na narrativa desse livro imperdível! Uma leveza, uma poesia…recomendo muito!

 

Obrigada, Carmen Miranda! As frutas dos seus chapéus abriram alas pros brancos, crespos, verdes, azuis que hoje vemos por aí!

(originalmente postado no Geração Mãe)