O Blogue da Chris

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Passado, presente e futuro

De longe a observava.

Como chegou a esse ponto?

Em seu estômago raiva, decepção e pena.

Um arremedo de si.

 

Um tapa na cara resolveria?

– Tá enganando quem? Acorda!

 

Um espelho incômodo de se ver.

Cadê sua coragem?

Desmanchou com a chuva que não cai no Planalto Central desde maio?

Perdeu-se nas obviedades de Brasília?

 

A expectativa frustrada doía.

Ela dava duro pelo tal futuro.

Tinha de ter valido à pena!

Que droga!

 

Aquele futuro sem graça  a fez lembrar de Macabeia.

S0nhos? Planos?

Nem o sorriso tava mais lá.

 

Uma lástima.

 

Precisava voltar.

Como acertar? O que mudar?

A resposta estava na resistência.

Resistir sendo.

Em não se permitir ser moldada.

É isso.

Ela um passado decepcionado com o futuro.

Ela com o peso de toda uma existência em suas costas.

Resistiria. Resistiria.

a branca de leite - christiane nobrega

Áudio Livro “A Branca de Leite”

 

 

A alergia alimentar é uma séria questão de saúde pública. Sua ocorrência afeta inúmeras pessoas o que impõe a adoção de políticas públicas de conscientização sobre o tema. Neste sentido, em algumas cidades do Brasil, a partir de iniciativas da sociedade, foi instituída a Semana de Conscientização sobre Alergia Alimentar quando são promovidas ações de conscientização a fim de incluir os alérgicos alimentares e, sobretudo, evitar reações alérgicas.

 

É imprescindível que a sociedade como um todo, especialmente as escolas e serviços de saúde, discutam e estabeleçam métodos para não só incluir os alérgicos, como também prevenir reações alérgicas a partir de exposições desnecessárias ou acidentais, que, além do risco e prejuízos pessoais e sociais, significam gastos do sistema de saúde público ou suplementar.

 

A data, terceira semana de maio, foi estabelecida internacionalmente por algumas instituições. No Brasil, o estado do Pernambuco e a cidade de Campos dos Goitacazes tem lei aprovada instituindo a mesma data. Em São Paulo, Brasília, Espírito Santo e Piracicaba tem projeto de lei em andamento.

 

Mas esse papo formal e embolorado não combina comigo e independente de iniciativa pública venho fazendo a minha parte divulgando a causa em ações virtuais e presenciais.

Nesse ano de 2018, por motivos pessoais, não participarei presencialmente de nenhum evento e estou especialmente de coração partido pela semana em Campos dos Goitacazes capitaneada pela jornalista Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, que tenho certeza será uma arraso.

 

Assim, fazendo o que me resta, a divulgação virtual, segue minha contribuição: o áudio livro do A Branca de Leite maravilhosamente produzido pela C de Coisas, história que nasceu do e para meu ativismo. Com as vozes de Adriano Siri, Adriana Nunes, Luciana Amaral, Theo Camanho, Marcello Linhos e Lis Nunes e Trilha original de Marcello Linhos, Direção e montagem: Adriano Siri e Produção C de Coisas.

 

Divirtam-se!

 

 

 

Pedrada

Era sábado à tardinha. Sentado, do batente da sua casa, viu tudo. O pai cansado subia a ladeira. Trocava os passos, cambaleava. A vida era dura demais e a cachaça barata aliviava. O outro que bebia junto vinha logo atrás. Falava alto. Gesticulava. Algumas vezes o pai virava para trás e olhava o amigo, vizinho e compadre. Respirava fundo como um antídoto contra as palavras que ouvia e que lhe doíam. Como um herói, resistia em pé. Andando. Subindo. Ouvindo. A respiração funda não bastou. Uma das palavras não caiu bem. Indigesta. Virou-se. Reuniu em si o resto que lhe faltava de equilíbrio e o fim começou.

 

Um embolado de gente. Já não se sabia quem era o pai. Quem era o vizinho. Pés. Mãos. Gritos. Sangue. Silêncio. Sirene.

 

Amigos. Eles eram amigos. Decididamente.

 

Sentia-se cheiro de suor, de raiva e de sangue. Decididamente. Não havia raiva um do outro. Não. Havia muita dor. Dor da vida. Dor da fome. Dor do medo. Dor da solidão.

 

O menino tremia. Chorava. A mãe, incrédula, via a cena. O pai algemado, sem resistir. Não, a ele não cabiam resistências. O amigo, companheiro de vida, deitado no chão.

 

A mãe o colocou na cama. Rezou com ele. A noite foi longa na cama vazia. O espaço que sobrava não lhe trazia conforto. Medo, trazia medo. A mãe desistiu de lutar para dormir. Fez seu café ralo. Ia à delegacia.

 

O ônibus lotado. Passou por baixo da roleta. Pela janela olhava os prédios e via a briga. Criava teorias. Ficava bravo com o pai e mais ainda com a polícia. A mãe segurava firme a sua mão. Prendia o choro. Indignava-se. Lembrou das brincadeiras. Do futebol domingo à tarde. Riu. Chegou o ponto. Desceu, ajeitou a camiseta surrada por cima da sua bermuda. Foi. A cada passo uma dor. Um esforço. Um medo.

 

O lugar escuro fedia. As paredes eram cobertas de mofo. Cheirava mal e seu estômago embrulhava. Não pode vê-lo. Ali crianças não podiam entrar. Ficou sozinho enquanto a mãe ia.

 

O pai monossilábico, a mãe contou. Voz baixa. Quis saber notícia do amigo que já estava bem. Voltou até a trabalhar. Que alívio! Queria depor. Queria falar que não era culpa dele. Achava que podia “tirar queixa”. Não podia. Não era assim. Uma pedrada daquela na cabeça era para matar. Na cabeça. Na cabeça da justiça. Não dos amigos. Bêbados. Cansados de uma vida de dor. Sem propósito.

 

Nada resolveu. Defensoria. Ministério Público. Juiz. Apelação. As grades seriam o destino de seu pai e os companheiros a personificação de sua dor. Anos a fio. Visitas humilhantes. Preferia a solidão. Doía menos.

 

A vida seguiu lá fora. Não a mesma. Aquele beco. O amigo. A cicatriz. Muita saudade.

 

O menino já era um jovem quando o pai saiu. Saiu outro. O desconheceu. Extraíram-lhe a humanidade. Os olhos se tornaram frios. Dentro de si, revolta e fome. Fome de comida. Fome de justiça. Já não humano, sua vida se esvaia. A pedrada o matou.