O Blogue da Chris

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Passado, presente e futuro

De longe a observava.

Como chegou a esse ponto?

Em seu estômago raiva, decepção e pena.

Um arremedo de si.

 

Um tapa na cara resolveria?

– Tá enganando quem? Acorda!

 

Um espelho incômodo de se ver.

Cadê sua coragem?

Desmanchou com a chuva que não cai no Planalto Central desde maio?

Perdeu-se nas obviedades de Brasília?

 

A expectativa frustrada doía.

Ela dava duro pelo tal futuro.

Tinha de ter valido à pena!

Que droga!

 

Aquele futuro sem graça  a fez lembrar de Macabeia.

S0nhos? Planos?

Nem o sorriso tava mais lá.

 

Uma lástima.

 

Precisava voltar.

Como acertar? O que mudar?

A resposta estava na resistência.

Resistir sendo.

Em não se permitir ser moldada.

É isso.

Ela um passado decepcionado com o futuro.

Ela com o peso de toda uma existência em suas costas.

Resistiria. Resistiria.

Brasília

Há um ano e uns meses eu recebi o diagnóstico do neurinoma vestibular com indicação de cirurgia e lá fui eu a uma verdadeira peregrinação médica. O endereço de um neurocirurgião indicado era no Setor Hospitalar Sul. Estacionamento “menos difícil”, onde? Em frente ao cemitério. Eu ali com um laudo de ressonância magnética na mão e um cemitério no retrovisor. Foi desconfortante eu ali com um diagnóstico grave tendo como horizonte vários jazigos e coroas de defunto. Restava a mim praguejar Lúcio Costa.

Quem pensaria em um cemitério em área contí

Foto de Elias Lucena

gua aos hospitais? O doente ter como vista túmulos, enterros, velórios e, quiçá, assombrações? Aquela paisagem no espelho do carro me fez, entre tantas outras coisas, repensar Brasília e reformular o que dela eu pensava e sentia.

Comecei lembrando que uma pergunta me perseguiu toda a vida ao me anunciar de Brasília: “Você sempre vê o presidente e os deputados?”. E daqueles que já conheciam a capital, eu ouvia que Brasília era uma cidade fria. Eu de certa forma, me incomodava, nasci e cresci em Taguatinga, ex-cidade-satélite e atual região administrativa. Lá era cheio de vida. Crianças na rua, adultos batendo papo nas calçadas, cachorros conhecidos na vizinhança. Naquele dia da consulta, me deparei com essa cidade fria.

Não dá pra chamar de humana uma cidade, planejada, onde o cemitério e o hospital são vizinhos. Quem seria capaz de pensar a praticidade disso? Não dá pra chamar de humana uma cidade que destinou aos seus operários as tais cidades satélites tão distantes do rico Plano Piloto (Taguatinga, 20 km; Núcleo Bandeirante, 17 km; etc). Brasília já nasceu elitista. Já nasceu destinando aos pedreiros a periferia, que nem o nome de bairro ou de Brasília tem em seu endereço.

Claro que esse texto não tem nenhuma pretensão científica. Esse texto é de opinião. O máximo que fiz foi ir ao Google, ansiando por quebrar minha solidão ao criticar a amada Brasília. A Brasília construída pra carros, não pra gente. As distâncias, os desenhos… e hoje um tanto de ausência de políticas públicas de mobilidade urbana. Caminhar em Brasília é um desafio e tanto! Estacionar também. Então, voltando, fui ao Google buscar companhia e achei uma entrevista do arquiteto Márcio Kogan que, lógico, nunca tinha ouvido falar, dizendo que Brasília “É uma cidade pensada para os carros, não para que você se movimente andando. Uma vez, ao sair de um hotel, como não havia como ir a lugar algum sem carro, ficamos no bar do lobby comendo um sanduíche”.

Mas não encontrei só isso, encontrei um dos pensadores da cidade e ovacionado por ela, Oscar Niemeyer, dizer anos após a inauguração de Brasília: “Ah, não sei… Se tivesse mais tempo seria diferente, ela foi feita às pressas. Talvez eu propusesse fazer somente os prédios governamentais e hotéis”.

Aos fãs incondicionais da cidade planejada que aguentaram ficar até aqui, não coloquem meu nome na boca do sapo. Peço calma. Eu também me emociono ao ver a Esplanada surgindo à minha frente. Mas verdade seja dita, cemitério vizinho de setor hospitalar merece minha total e irrestrita indignação! Nem só de Esplanada é Brasília…