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a branca de leite - christiane nobrega

Áudio Livro “A Branca de Leite”

 

 

A alergia alimentar é uma séria questão de saúde pública. Sua ocorrência afeta inúmeras pessoas o que impõe a adoção de políticas públicas de conscientização sobre o tema. Neste sentido, em algumas cidades do Brasil, a partir de iniciativas da sociedade, foi instituída a Semana de Conscientização sobre Alergia Alimentar quando são promovidas ações de conscientização a fim de incluir os alérgicos alimentares e, sobretudo, evitar reações alérgicas.

 

É imprescindível que a sociedade como um todo, especialmente as escolas e serviços de saúde, discutam e estabeleçam métodos para não só incluir os alérgicos, como também prevenir reações alérgicas a partir de exposições desnecessárias ou acidentais, que, além do risco e prejuízos pessoais e sociais, significam gastos do sistema de saúde público ou suplementar.

 

A data, terceira semana de maio, foi estabelecida internacionalmente por algumas instituições. No Brasil, o estado do Pernambuco e a cidade de Campos dos Goitacazes tem lei aprovada instituindo a mesma data. Em São Paulo, Brasília, Espírito Santo e Piracicaba tem projeto de lei em andamento.

 

Mas esse papo formal e embolorado não combina comigo e independente de iniciativa pública venho fazendo a minha parte divulgando a causa em ações virtuais e presenciais.

Nesse ano de 2018, por motivos pessoais, não participarei presencialmente de nenhum evento e estou especialmente de coração partido pela semana em Campos dos Goitacazes capitaneada pela jornalista Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, que tenho certeza será uma arraso.

 

Assim, fazendo o que me resta, a divulgação virtual, segue minha contribuição: o áudio livro do A Branca de Leite maravilhosamente produzido pela C de Coisas, história que nasceu do e para meu ativismo. Com as vozes de Adriano Siri, Adriana Nunes, Luciana Amaral, Theo Camanho, Marcello Linhos e Lis Nunes e Trilha original de Marcello Linhos, Direção e montagem: Adriano Siri e Produção C de Coisas.

 

Divirtam-se!

 

 

 

Chapeuzinho Vermelho

Chapeuzinho Vermelho

 

Chapeuzinho Vermelho era uma menina esperta e inteligente. Ela vivia na floresta com sua mãe, que fazia quitutes maravilhosos! Tudo muito gostoso e caprichado. Chapeuzinho adorava ajudar a mãe na cozinha. Enrolava doces, provava pães e embalava os salgados. Já até fazia algumas receitas mais simples sozinha. Se divertiam juntas fazendo mágicas na cozinha.

 

Numa linda manhã de sábado, a vovó ligou contando que estava doente e precisava de ajuda. Pediu que a filha mandasse uns lanchinhos, quem sabe assim ela se sentiria melhor. A vovó tinha umas alergias alimentares e não podia comer todas as coisas. Mas a filha e a neta sabiam direitinho o que ela podia comer e correram para a cozinha.

 

Misturavam a farinha, com carinho. O açúcar, com muito afeto! Ovo? Não, não, ela não podia. Leite de coco? Esse sim ela podia. Leite de vaca? Nem pensar! Não podiam esquecer o fermento e de pré-aquecer o forno. Quando terminaram tudo, a casa estava repleta de um perfume fantástico e a mesa estava cheia de bolos, pães e doces incríveis! A mãe pegou uma linda e grande cesta de piquenique, forrou com seu pano mais bonito e organizou tudo.

 

 

– Filha, você quem vai levar a cesta para a vovó. Cuidado no caminho. Dizem por aí que há um lobo no parque e que ele anda rondando crianças.

 

– Não se preocupe, tô levando meu celular, vejo no waze os alertas de lobos. – depois que falou isso, vestiu sua capa de chuva vermelha e suas galochas e foi encontrar a vovó enquanto sua mãe terminava suas encomendas.

 

Ah! O parque que ficava entre a casa da avó e a de Chapeuzinho era lindo! Cheio de árvores, pássaros e outros animaizinhos. Ela ficou tão animada que até esqueceu do lobo. Ia fazendo do caminho um belo passeio quando teve seus pensamentos interrompidos por alguém:

 

– Ei! Ei menina!? Onde você está indo com essa cesta enorme? – ela esqueceu que a mamãe tinha avisado para não falar com estranhos e foi logo respondendo:

 

– Quem é você? Eu sou a Chapeuzinho Vermelho e vou visitar minha avó, que está doente. Nessa cesta estão os lanches que preparamos para ela. Mamãe também colocou algumas frutas.

 

– E onde sua avó mora?

 

– No final do parque.

 

Chapeuzinho estava tão animada com tudo que nem percebeu que ela falava com quem? Com quem? Com ele, ele mesmo, o Lobo!

 

O Lobo morto de fome, doido pela cesta e pela menina, decidiu pegar um atalho e chegar primeiro que Chapeuzinho. Chegou na casa da Vovó e a prendeu no guarda-roupa. Vestiu suas roupas, mas esqueceu de pegar o celular da vovó! Ela, muito esperta, mandou logo um whatsaap pra netinha:

– Minha neta, chame ajuda, o Lobo me prendeu no armário e está vestido com minhas roupas para enganar você e comer meus lanches. – Assim que leu, Chapeuzinho ligou para a polícia.

 

O Lobo ficou muito engraçado com a camisola florida, touca e pantufas da vovó. Sentou-se na cadeira de balanço meio desajeitado e esperou. Esperou e até cochilou. Chapeuzinho demorou por que estava esperando a polícia.

Toque-toque-toque:

– Quem bate? – perguntou tentando afinar a voz.

Fingindo não saber de nada e seguindo as orientações da policial que estava escondida ao lado da porta, falou:

– Sou eu, vovó! A senhora está rouca mesmo, hein?

– É a rinite, netinha. O que você trouxe pra mim aí nessa cesta?

– Ah! Vovó, trouxe muitas comidas gostosas. – disse a menina bem nervosa.

O Lobo pegou a cesta e já foi colocando o primeiro bolinho na boca quando Chapeuzinho perguntou:

– Você vai mesmo comer sem saber o que tem? E se você tiver alergia?

– HAHAHHHAHA – riu alto o Lobo – alergia é frescura! Um médico me falou que eu não podia amêndoa nem http://christianenobrega.com.br/bananas-amassadas/, mas é bobagem, coisa de gente besta, quero mais é encher minha pança!- tirou a touca e meteu vários pãezinhos de uma vez na sua bocona. Chapeuzinho ficou com medo do Lobo e também preocupada porque era exatamente um pão de amêndoa que ele pegou para comer.

O Lobo ainda devorando a cesta de comidas, começou a se coçar. Coça aqui. Coça ali:

– Devo estar com pulgas! – mas seu olho começou a inchar e o Lobo já estava mesmo era parecendo um balão e não um lobão. Sorte do Lobo que junto com os policiais que cercaram a casa, veio uma ambulância com médico para cuidar da Vovó.

Ufa! O Lobo foi socorrido a tempo e aprendeu a lição, alergia é realmente coisa séria. Depois que saiu do hospital, pediu desculpas à vovó, à Chapeuzinho e à mãe. Acreditam que a conversa foi tão boa que até ficaram amigos? Perdoar e aprender com os erros é muito importante. O Lobo que queria mudar de vida, pediu ajuda para a mãe da menina e passou a ser o entregador das encomendas e elas decidiram que não mais usariam mais amêndoas em suas receitas, assim a vovó e o Lobo poderiam comer tranquilos todas aquelas delícias!

Diário Alimentar

Diário Alimentar

Sabem aquelas dicas que a gente pensa: “ah se tivessem me contado isso antes?”, pois é, essa do diário alimentar é uma delas.

Quando recebi o diagnóstico da APLV (alergia ao leite de vaca) de Samuel não foi nada fácil. O médico foi certeiro e deu o tratamento: excluir o alimento da dieta. Parece bem simples, não? Mas não é nada simples.

O dia-a-dia da alergia não se aprende no consultório, por mais que o médico tenha muito conhecimento e boa vontade. Decidimos juntos, o médico e eu, a acompanhar quinzenalmente nessa primeira fase de diagnóstico e tratamento.

Algumas consultas eram muito animadoras, outras nem tanto. Eu ficava completamente perdida. Parecia estar fazendo tudo certo, mas os sintomas iam e voltavam. Depois de dias investigando o que estava furado na minha alimentação, decidi tomar nota de várias coisas diariamente, fazendo assim um diário alimentar.

O diagnóstico do Samuel veio quando ele ainda estava em AME – Aleitamento Materno Exclusivo – logo, quem fazia a dieta era eu. Então, neste Diário eu anotava diariamente:

  • todas as refeições feitas, incluindo as marcas e os temperos;
  • medicamentos, vacinas e complementos vitamínicos utilizados por ambos, registrando o laboratório, inclusive;
  • produtos de higiene pessoal de ambos, meus e dele;
  • cosméticos;
  • reações do bebê:

5.1- Comportamento:

–Sono

–Irritabilidade

5.2- Respiratório:

–Tosse

–Catarro

–Chiado no peito

5.3- Gastrointestinais:

–Fezes (muco, sangue, diarreia, cor e consistência)

–Gazes

–Cólicas

— Vômito ou refluxo

5.4-Pele:

–Coceira

–Edemas

–Urticárias

–Assaduras

  • Mudanças importantes de rotina, como passeios, consultas e visitas.

 

Muita coisa para escrever, não é? Para ficar mais fácil, Elias, o pai, fez uma tabela onde só preenchíamos os espaços.

O diário entrou na nossa rotina sem muita dificuldade, IMPORTANTE, sem ser um peso. O caderno ficava lá: ao lado da minha cama, e eu o preenchia. Algumas vezes inseria desabafos, outras piadas, outras escrevia: “o mesmo de ontem”, “nada de novo”, “vou enjoar de cuscus”, “esse bolo tava bem ruim”… ele, o diário, não foi uma grande obrigação, foi uma ajuda e que me limitei a manter atualizado.

Partindo dessas anotações, foi possível diagnosticar a alergia a ovo e também descobrir onde havia erros na minha dieta, possibilitando acertar o tratamento do meu filho. Acontece que nos casos de alergia alimentar, exames são complementares, para o diagnóstico a observação clínica adequada é fundamental e o diário foi um mecanismo maravilhoso para se chegar à cada conclusão.

O trabalho valeu a pena! Que bom que posso dar essa dica a está começando!

 

Bananas Amassadas

Um conto colombiano, colhido por Nyedja Gennary e adaptado por Christiane Nóbrega

Juquinha nasceu ótimo. Vivia mamando no peito de sua mãe e dormindo no aconchego de seu pai. Tudo ia mais ou menos bem. No começo é tudo meio confuso mesmo. Juquinha tinha cólicas horríveis, sua barriga ficava estufada e algumas vezes seu cocô saia com sangue.

O médico disse que a mãe tinha de comer coisas saudáveis, mas Juquinha não melhorava, só piorava. Quanto mais seus pais tentavam, mais ele piorava.

Quando ele começou a se alimentar de outras coisas além do peito, ele já não conseguia dormir nem no colo do papai e nem no da mamãe. Chorava muito. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

A mãe pediu ajuda nas redes sociais, colocou um SOS bem grande. Foi orientada que podia ser alergia alimentar e teria que fazer vários testes com os alimentos. Percebeu que sempre que ela tomava leite de vaca tudo piorava.

Confundiu as bolas e pensou que o problema era lactose. Ele piorou de novo, afinal de contas, é muito raro bebês com intolerância à lactose. É muito mais comum a alergia à proteína do leite. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

Acham que ele melhorou? Que nada! Pararam de comer glúten, acharam que ele era celíaco, outro problema de saúde. Mas nada de melhorar.

-O que seria que estava fazendo tão mal a ele? – falou a mãe.

-Certeza que é a carne vermelha! – disse o pai – Nada de carne vermelha à partir de hoje. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

“Será que os alimentos podem mesmo ser um grande vilão?” – pensou o papai do Juquinha. Sem leite de vaca, sem carne vermelha, sem glúten e nada de melhorar! Já não sabiam o que fazer. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

Finalmente o papai e a mamãe conseguiram uma vaga com uma grande médica, muito estudiosa, muito carinhosa e atenciosa:

– Nada de pânico! Senta aqui e vamos conversar! – disse a médica. E, então, ele começou a explicar tudo, tudinho mesmo. Os pais nem piscavam, queriam entender tudo, tudinho mesmo.

É, devia mesmo ser a tal alergia alimentar.

– Nosso corpo – explicou a médica – tem uns soldados que nos defendem dos germes, aqueles bichinhos bem pequenininhos que nos deixam doentes, sabem? Algumas vezes eles ficam meio confusos e acham que alguns alimentos são germes e reagem contra eles causando as tais reações alérgicas. Tem gente que se empola, tem gente que se coça, tem quem fique inchado e quem tenha problemas na barriga, feito Juquinha. Agora, é descobrir qual é o alimento vilão dessa história. Quem? Quem? Quem?

– Que exame faz, doutora? – já foi perguntando o apressadinho do papai do Juquinha.
– São poucos exames. É que na alergia eles ajudam só um pouco. A observação é bem importante – disse a médica – vocês precisam ter cuidado com contaminação cruzada e com os traços.

-Hein? – falaram juntos o pai e a mãe e pensaram que ainda bem que ele come bananas amassadas.

-Calma! Contaminação cruzada é quando um alimento se mistura com o outro. Tipo quando a gente põe a colher do feijão no arroz e fica tudo marronzinho de feijão, ou quando um grão de arroz vai nadar no caldinho de feijão, sabe? Ou quando pegamos a farofa com a colher suja de molho? – Respirou fundo e continuou – já os traços são mais escondidinhos, os danadinhos, podem vir na bucha, na vasilha plástica que não limpa direito nunca, na tábua ou colher de madeira… Ah! Os traços podem vir também no biscoito, na farinha, no suco, sabem por que? Em alguns casos, fábricas usam a mesma máquina para fazer produtos diferentes que acabam deixando os tais traços.

A essa altura o papai e a mamãe do Juquinha já estavam meio tontos com tanta novidade. Alergia, traço, contaminação, anotar, exame…e lá no fundo pensavam que ainda bem que o Juquinha comia bananas amassadas.

Pronto. Seguiram as orientações médicas. Agora buscaram ajuda nas redes sociais só para saber receitas, alimentos seguros, estratégias de como lidar com amigos, família… nada de diagnóstico. Esse é só para a médica.

Passaram dias e dias. A mãe anotava almoço e janta, o pai o café e o lanche. Trocavam. O pai anotava janta e almoço. A mãe anotava lanche e café. Foram tirando um alimento e pondo outro, tudo como o médico explicou. Ia e vinha. Se tornaram verdadeiros detetives. Ainda bem que Juquinha comia bananas amassadas.

Ele melhorou, mas só um pouco. Voltaram à médica. Dessa vez com o caderno onde anotavam tudo. Logo a médica viu quem nunca saiu dali. Elementar, meus caros! As tais bananas amassadas! Como pode a banana uma fruta tão bonitinha e saudável fazer mal a alguém? Sim, ela fazia. Mistério esclarecido. Saíram aliviados, tinham finalmente uma resposta. Sim, Juquinha tinha alergia a leite, mas também a banana.
Agora Juquinha dormia, sorria, engordava e até tinha aquelas viroses e febres que toda criança tem e os pais conseguiam perceber a diferença da reação e dos outros problemas.

No aniversário de um ano de Juquinha, sua mãe e seu pai fizeram uma festa muito legal para comemorar. Convidaram todo mundo, quer dizer, menos o leite e a banana, claro.

A festa foi linda e cheia de coisas gostosas. Só o que Juquinha podia comer. Tinha brigadeiro, bolo, salada de fruta, sanduíches, água e suco. Tinha também quibe, empadinha e coxinha. Tinha muito amor e carinho. Tinha também muita amizade e respeito. Foi nesse dia que o R da palavra alergia decidiu se mudar, quis ficar entre o G e o I. Daquele dia em diante, a palavra seria ALEGRIA!