Um conto colombiano, colhido por Nyedja Gennary e adaptado por Christiane Nóbrega

Juquinha nasceu ótimo. Vivia mamando no peito de sua mãe e dormindo no aconchego de seu pai. Tudo ia mais ou menos bem. No começo é tudo meio confuso mesmo. Juquinha tinha cólicas horríveis, sua barriga ficava estufada e algumas vezes seu cocô saia com sangue.

O médico disse que a mãe tinha de comer coisas saudáveis, mas Juquinha não melhorava, só piorava. Quanto mais seus pais tentavam, mais ele piorava.

Quando ele começou a se alimentar de outras coisas além do peito, ele já não conseguia dormir nem no colo do papai e nem no da mamãe. Chorava muito. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

A mãe pediu ajuda nas redes sociais, colocou um SOS bem grande. Foi orientada que podia ser alergia alimentar e teria que fazer vários testes com os alimentos. Percebeu que sempre que ela tomava leite de vaca tudo piorava.

Confundiu as bolas e pensou que o problema era lactose. Ele piorou de novo, afinal de contas, é muito raro bebês com intolerância à lactose. É muito mais comum a alergia à proteína do leite. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

Acham que ele melhorou? Que nada! Pararam de comer glúten, acharam que ele era celíaco, outro problema de saúde. Mas nada de melhorar.

-O que seria que estava fazendo tão mal a ele? – falou a mãe.

-Certeza que é a carne vermelha! – disse o pai – Nada de carne vermelha à partir de hoje. Ainda bem que ele comia bananas amassadas.

“Será que os alimentos podem mesmo ser um grande vilão?” – pensou o papai do Juquinha. Sem leite de vaca, sem carne vermelha, sem glúten e nada de melhorar! Já não sabiam o que fazer. Ainda bem que ele comia as bananas amassadas.

Finalmente o papai e a mamãe conseguiram uma vaga com uma grande médica, muito estudiosa, muito carinhosa e atenciosa:

– Nada de pânico! Senta aqui e vamos conversar! – disse a médica. E, então, ele começou a explicar tudo, tudinho mesmo. Os pais nem piscavam, queriam entender tudo, tudinho mesmo.

É, devia mesmo ser a tal alergia alimentar.

– Nosso corpo – explicou a médica – tem uns soldados que nos defendem dos germes, aqueles bichinhos bem pequenininhos que nos deixam doentes, sabem? Algumas vezes eles ficam meio confusos e acham que alguns alimentos são germes e reagem contra eles causando as tais reações alérgicas. Tem gente que se empola, tem gente que se coça, tem quem fique inchado e quem tenha problemas na barriga, feito Juquinha. Agora, é descobrir qual é o alimento vilão dessa história. Quem? Quem? Quem?

– Que exame faz, doutora? – já foi perguntando o apressadinho do papai do Juquinha.
– São poucos exames. É que na alergia eles ajudam só um pouco. A observação é bem importante – disse a médica – vocês precisam ter cuidado com contaminação cruzada e com os traços.

-Hein? – falaram juntos o pai e a mãe e pensaram que ainda bem que ele come bananas amassadas.

-Calma! Contaminação cruzada é quando um alimento se mistura com o outro. Tipo quando a gente põe a colher do feijão no arroz e fica tudo marronzinho de feijão, ou quando um grão de arroz vai nadar no caldinho de feijão, sabe? Ou quando pegamos a farofa com a colher suja de molho? – Respirou fundo e continuou – já os traços são mais escondidinhos, os danadinhos, podem vir na bucha, na vasilha plástica que não limpa direito nunca, na tábua ou colher de madeira… Ah! Os traços podem vir também no biscoito, na farinha, no suco, sabem por que? Em alguns casos, fábricas usam a mesma máquina para fazer produtos diferentes que acabam deixando os tais traços.

A essa altura o papai e a mamãe do Juquinha já estavam meio tontos com tanta novidade. Alergia, traço, contaminação, anotar, exame…e lá no fundo pensavam que ainda bem que o Juquinha comia bananas amassadas.

Pronto. Seguiram as orientações médicas. Agora buscaram ajuda nas redes sociais só para saber receitas, alimentos seguros, estratégias de como lidar com amigos, família… nada de diagnóstico. Esse é só para a médica.

Passaram dias e dias. A mãe anotava almoço e janta, o pai o café e o lanche. Trocavam. O pai anotava janta e almoço. A mãe anotava lanche e café. Foram tirando um alimento e pondo outro, tudo como o médico explicou. Ia e vinha. Se tornaram verdadeiros detetives. Ainda bem que Juquinha comia bananas amassadas.

Ele melhorou, mas só um pouco. Voltaram à médica. Dessa vez com o caderno onde anotavam tudo. Logo a médica viu quem nunca saiu dali. Elementar, meus caros! As tais bananas amassadas! Como pode a banana uma fruta tão bonitinha e saudável fazer mal a alguém? Sim, ela fazia. Mistério esclarecido. Saíram aliviados, tinham finalmente uma resposta. Sim, Juquinha tinha alergia a leite, mas também a banana.
Agora Juquinha dormia, sorria, engordava e até tinha aquelas viroses e febres que toda criança tem e os pais conseguiam perceber a diferença da reação e dos outros problemas.

No aniversário de um ano de Juquinha, sua mãe e seu pai fizeram uma festa muito legal para comemorar. Convidaram todo mundo, quer dizer, menos o leite e a banana, claro.

A festa foi linda e cheia de coisas gostosas. Só o que Juquinha podia comer. Tinha brigadeiro, bolo, salada de fruta, sanduíches, água e suco. Tinha também quibe, empadinha e coxinha. Tinha muito amor e carinho. Tinha também muita amizade e respeito. Foi nesse dia que o R da palavra alergia decidiu se mudar, quis ficar entre o G e o I. Daquele dia em diante, a palavra seria ALEGRIA!