O dia em que nasci escritora

 

christiane nobrega - autora do livro a branca de leite

 

Desde pequena me atraíam as letras. Quando eu lia um livro ou assistia um filme, invejava quem teve capacidade de pensar uma história completa. A escritora que tinha nas mãos o poder de inventar mundos, relacionamentos, aventuras. A capacidade de levar o leitor onde quiser. Chorar, sorrir e até gritar. Uma poesia minha foi selecionada para o livro da escola quando eu era da 2ª série!

Aí eu cresci. Cresci e meus sonhos ficaram para trás. Como se não coubessem mais em mim, uma roupa apertada e curta. Mais que isso, esqueci de alguns completamente. Descobri que, na verdade, eles não ficaram para trás, só migraram da ilha principal para ilha do sono e um dia um despertador enorme e barulhento tocou e acordou a todos. E agora? O que eu faria com cada um deles? Uns descartei, eram realmente sem sentido. Outros voltei a cultivar. Desse cultivo, nasceu o blogue.

Não tive/tenho disciplina para escrever com regularidade. Passei meses e até ano com o blogue sem postagens. O que fazer para seguir escrevendo com prazer? Abrindo mão de faxinar a casa, de ficar navegando na internet à deriva para me dedicar a escrita? Escrevendo para alguém, já que não tenho disciplina, responsabilidade sei cumprir, prazo então, nem se fala! Propus a um grupo local escrever o seu site. Não deu muito certo, não era a pegada do grupo. Aí surgiu a oportunidade de escrever quinzenalmente para o Geração Mãe sobre temas diversos e, especialmente, cultura voltada para o universo infantil. Bingo! Já há um ano no ar! Os meus textos não têm recordes de acesso, mas tem baixíssima rejeição, o que é muito bom.

 

Além dos textos do blogue, começaram a surgir histórias na minha cabeça. A primeira que formatei como um livro nasceu de uma tarde chata e entediante de domingo. Escrevi, formatei com espaço para ilustrar, paginei, mandei imprimir e gritei:

 

-Lele, tem um “negócio” pra você na impressora! – ela amou! Ilustrou e foi muito legal!

 

Depois dessa delícia de experiência, comecei a mostrar o livro que fiz pra Lelê para várias amigas do ramo. Fiquei bolada, todos gostaram. Não levei nenhum comentário a sério, afinal, eram amigas. A tal lente do amor põe beleza em tudo. Mas também não desanimei e mostrei meus textos a um editor. Ele topou publicar uma história da Maria Elisa que reescrevi: “Júlio, um dinossauro muito especial”. Assinei o contrato e esqueci, parece que o tal sonho voltou para tal ilha.

 

Passados 6 meses da assinatura do contrato, recebi um e-mail com o arquivo do livro. Caraca! E a coragem de abrir? E se o livro estivesse uma bela porcaria? Sim, eu muitas vezes me boicoto. Até que um dia decidi abrir e foi uma grata surpresa. Gostei muito do resultado. Pronto, agora era cuidar na organização do lançamento. Data e local marcados, coração na mão.

 

A ansiedade me consumiu na véspera e no dia. Minha cria seria parida e seria exposta às pessoas. Como seria? O que diriam? A minha amiga Gina Karla me maquiou e penteou. Nem gosto dessas coisas, mas aceitei e foi bom demais! Fundamental para me acalmar.

Saindo da Gina olhei para o céu e cara de chuva, o shopping era aberto, e agora? Como Deus é bom, a Elizabeth Mota, responsável pelo lançamento junto à livraria, mandou uma mensagem:

– Não se preocupe com a chuva, tenho um plano B, fique tranquila! – que carinho! Nunca vou esquecer!

 

Frio na barriga. Sentei na cadeira e só levantei depois de 105 livros assinados, muitos abraços e muito carinho de amigos e pessoas que nunca vi. 2h20 sentada e feliz! Foi um dia memorável!  Hoje, 10 meses depois, já são mais de 700 exemplares vendidos e muita alegria espalhada com as cores do Júlio.

E foi assim, no dia 04 de junho de 2016, eu nasci como escritora!