Ganhei de um amigo querido uma caixa de livros com biografias escritas em quadrinhos (Patmo Editora). Comecei a leitura por Jackson do Pandeiro. O fato é que ao me deliciar com a leitura me perguntei quantas crianças paraibanas conhecem a história desse fenômeno da música brasileira? Quantas outras foram apresentadas à poesia cantada por Luiz Gonzaga além das festas juninas? Quantos no Brasil sabem que Ariano Suassuna não é um comediante cuja obra se limitaria ao “Auto da Compadecida”? Quantos se referem ao nordeste como se ele fosse um único estado e sem respeitar a sua individualidade? Dava para escrever um tratado sobre isso… não se preocupem, vai ser só um textão mesmo.

 

Em tempos onde tudo é resumido à mimimi, fico pensando na reação das pessoas ao lerem esse texto. Vamos lá, pessoal! O mundo tá bem chato mesmo e, spoiler, vai piorar, graças a Deus. Criança é gente. Mulher tem os mesmos direitos que homem. Preto é igual branco. Sotaque não é motivo de piada. Nordeste não é um estado.

 

Eu tinha uns 14 para 15 anos, início do Ensino Médio, então segundo grau. Primeiro dia de aula em escola nova (nunca havia trocado de escola) e aquela chatice de todos se apresentarem. Aqui em Brasília, temos um agravante: o tal do “de onde você vem?”. Chegou minha vez. “Nasci em Brasília.” “E seus pais?” “Minha mãe do norte do Goiás, hoje Tocantins e meu pai do Ceará.” Risadas contidas. Emendei. “Mas foi criado no Piauí.” Gargalhadas seguidos de um “Pió-cerá” dito por algum colega. Naquele dia, meu constrangimento se disfarçou de graça. Ri junto, mesmo tendo aprendido a amar e respeitar as minhas origens.

 

Depois desse dia, não lembro de posteriores preconceitos diretamente a mim, mas o preconceito estrutural sempre esteve aqui e aí todos os dias. Quantas vezes se ouve dizer que o “sotaque do nordeste é engraçado”, que pra um “nordestino até que ele é bonito”, esse “povo lento, hein?”, “comida esquisita”. Engraçado ver “sudestino” encher a pança de feijoada e torcer o nariz para buchada, sarapatel e mugunzá.

 

Duro, ainda, é quando paraíba é sinônimo de porteiro ou simplesmente “zé ninguém” ou quando baiano é

sinônimo de burro ou preguiçoso ou cearense de cabeçudo… e, não raro, o preconceito de origem se mistura ao de cor.

 

Não fiz um estudo técnico científico sobre isso. Mas nem precisaria.  A mídia é a grande, senão a maior, culpada da perpetuação dessa secção do país. A representatividade dos nordestinos nesses canais é ínfima. Jornalistas? Só os com sotaque carioca ou no mínimo, aqueles que se esforçam para mascarar sua identidade. Sequer quando há uma novela ou filme que se passe por lá, o elenco é genuinamente nordestino. Preferem atores e atrizes do Sudeste com um sotaque forçado e muitas vezes ridículo. O que era o sotaque da Beth Faria na novela “Tieta”? E da Juliana Paes em “Gabriela”? Enquanto isso, aos autênticos são dados os papéis de porteiros, empregadas que, pela estrutura da trama, são secundários, ridicularizados ou até mesmo invisíveis.

 

Os estados que compõe o Nordeste, são muito mais que sertão e mar. Não. Não são fornecedores de porteiros e empregadas dos bairros bacanas do Rio e São Paulo. Não. Não são um lugar de sotaque engraçado. Não. Não são só água de coco e mar. O fato é que as pessoas são ignorantes não só no preconceito, mas no conhecimento de Geografia mesmo.

 

Queria mesmo é que a reação dos não-nordestinos que chegaram até aqui, fosse repensar seu preconceito. Aventurem-se sobre Espedito Seleiro, Mestre Vitalino, Jessiê Quirino, Carol Levy, Santanna, João Cláudio Moreno, Maria Valéria Rezende, Noilton Pereira e tantos e tantas outras. Provem um cuscuz, comam uma tapioca, dancem um xaxado. Busquem conhecer a região, ainda que através do Google. Ensinem seus filhos a valorizar o que é nosso.

Coragem! Vai ser maravilhoso!